terça-feira, 20 de outubro de 2009

vestígios

Ela sabia que logo logo seria interrompida.
Alguém chegaria, e as lágrimas que escorriam sobre o rosto seriam vistas como fraqueza.
Ela não queria ser fraca. Isso era a última coisa que poderia ser no momento.
Tinha que ser rápida, tinha que descarregar isso antes que alguém chegasse,
assim poderia tomar seu banho e se arrumar pro trabalho.
Aparentemente tudo normal, como deveria ser.
A vida feliz que tanto sonhara batia à porta.
Ela só tinha que abrir e aproveitar...
Pela quantidade de tentativas frustradas, ela tinha perdido o mais precioso:
a esperança de que melhoraria...
Era ridículo imaginar que seria sempre assim. Era ridículo!
Mas o que ela deveria fazer? Começar a enganar a si mesma? Nessa altura do campeonato?
Tinha que aprender que não importava o que acontecesse, ela seria a única que estaria ao lado dela mesma em tudo.
Isso soaria como egoísmo e ingratidão pra alguns, mas ela sabe que seria assim. Ela sabia.
A noite anterior foi uma das piores, pelo menos das que ela tinha lembrança.
Mas isso ela não descarregaria aqui.
Sim, ela estava fugindo. Talvez de sí mesma. Talvez do mundo. Talvez de ninguém.
Aquela idéia fixa, na qual tinha se apegado, na qual seria sua última chance.
Ela nunca tinha desejado tanto partir como desejava hoje.
Partir sozinha, como deveria ser, sem 'ninguém' saber.
Algo dentro dela gritava... Implorava... Rastejava por uma solução.
Algo que fazia com que os olhos não aguentassem,
algo que não a deixava respirar livre.
Ela precisava matar aquilo,
antes que aquilo a matasse.
Ela queria que o devorador fosse embora dela pra sempre.
Ela não queria que ele estendesse a mão quando ela precisasse,
ela não queria mais nada dele... Nem afeto, nem amizade, nem amor... nem dor.
Ela só queria partir, sem correr o risco de se arrepender,
sem correr o risco de voltar.
Depois da noite passada ela tinha finalmente aprendido.
Ela não conseguiria viver assim, nem com 10000000 milhas de distância.

...

Aos prantos, ela desligara o telefone... Já estava tudo certo.
Ela só precisava arrumar tudo.
Alguém chegara, o barulho no portão denunciava,
enxugava as lágrimas e fingia estar tudo bem.
Seus amados precisavam disso.
E as únicas palavras que conseguia pronunciar,
depois de um suspiro demorado eram: "Você me perdeu... é hoje..."










'Fatos e relatos estão no mesmo barco,
e eu não te quero mais aqui, não.
O bem que tu me fez não repõe a sanidade e todo o mal que há em mim.
E você vai aprender que se ganha ao perder...
Não vou, não sou, não vou saber...
Prefiro a dor a ter você..'

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